Vasco Vilhena – A Poda das Nuvens

Vão à janela. Ou lá fora. Olhem para o céu. Certamente vão encontrar uma ou outra nuvem neste céu sem fim. Apareceu um raio de sol, um raio de sol profundo e caloroso. Apontou para a nossa playlist e, de repente, fez-se luz: estava a apontar para o segundo disco de originais de Vilhena, ‘A Poda das Nuvens’.

Desde que começámos a WtMM que temos, através de uma rúbrica em particular, incidido sobre os melhores novos albuns que vão sendo lançados. Hoje é o dia em que adaptamos essa coluna para português, estreando desta forma o primeríssimo ‘Vira o Disco e Toca o Novo’. De Portugal para o mundo, na nossa lindíssima língua materna.

Nunca tive muito jeito para a música. A minha voz afasta os pombos da janela, os instrumentos mantêm-se desafinados cada vez que lhes meto a mão. Mas é por este caminho que há algo que admiro: quem tem mãozinhas e poder vocal para a matéria. E aproveito a veia artística na escrita para tentar declamar sobre estes pequenos grandes artistas.

Os portugueses são muito patrióticos. A dedicação que temos com os nossos abrange qualquer área, seja a que hora for. Erguemos a bandeira bem alta, gritamos pelas nossas cores, até à celebração final. E é com este mote que vos vou falar do Vasco Vilhena.

O Vasco é um talento nato. E como talento que é, reinventa-se pelos caminhos que traça. A cada passo que dá, a magia aparece.

Vão à janela. Ou lá fora. Olhem para o céu. Certamente vão encontrar uma ou outra nuvem neste céu sem fim. Apareceu um raio de sol, um raio de sol profundo e caloroso. Apontou para a nossa playlist e, de repente, fez-se luz: estava a apontar para o segundo disco de originais de Vilhena, A Poda das Nuvens.

Depois de Urso Solar (2018), onde destacamos os sete minutos e quarenta de Trou Noir – um instant hit sem voz, onde os instrumentos nos guiam nesta jornada – e que está nas nossas playlists desde que a conhecemos – A Poda das Nuvens apresenta-nos uma versão mais madura de Vasco, onde a capacidade vocal é acompanhada de forma exímia de múltiplas sonoridades e instrumentos. Esta capacidade de reinvenção é incrível, estando ao alcance de poucos. E a realidade é que o encadeamento do disco nos presenteia alguém com um tremendo valor para o presente e futuro da música nacional.

A Poda das Nuvens desenrola-se sobre oito histórias, com um reflexo sobre tudo o que se passa na cabeça de um millennial enquanto o mundo lá fora evolui de forma desenfreada. De seguida, desdobramo-nos nos detalhes de cada uma das faixas:

Arrancamos com Antárctico e o verso ‘Isto é lá modo de começar’. Temos o talento de Vilhena no seu melhor estilo, com uma batida cativante e atual, acompanhada por uma voz simples e fácil de compreender, emergida sobre uma letra que mais parece uma história.

A Poda das Nuvens, segunda faixa do álbum e que dá alma ao nome do disco, traz uma versão mais rockeira do artista, envolto novamente num foco lírico que faz invejar os maiores poetas do nosso país.

O Mar que Sobra tem um instrumental de bradar aos céus. Um instant-classic com cheiro a glamour indie por todas as partes.

Com O Sangue dos Outros ouvimos Vasco e a sua veia artística no seu maior ponto. Em inglês temos o chamado género Spoken Word, aqui, por Portugal, temos Vilhena a declamar poesia e a arrepiar qualquer ouvinte, de uma forma semelhante à que Vitor Espadinha nos fez a todos, em ‘Ouvi Dizer’, dos Ornatos Violeta, há largos anos.

Corte e Cultura é o tipo de música que entra de rompante em qualquer playlist, com uma dose de rock misturada com jazz, seguida de uma letra tocante que não fará nenhum leitor indiferente de quão presente está na nossa sociedade.

Caminhando sobre A Estação de Chuvas, sexta canção do álbum, entramos dentro de Vasco, num jeito de introspeção. Divide-se em três trechos, numa tentativa de caminhar e reflectir sobre o passado, absorver o que foi feito e, dessa forma, projectar o presente e o futuro com todas as experiências vividas até então. A voz guia-nos durante dois minutos e quarenta e oito, arrepiando caminho sobre o pensamento de Vilhena.

Depois da reflexão, vem Vapor. A letra fala por si, com trechos como ‘Já me desconstruí, para vos explicar por miúdos’ ou ‘Sei lá se o que digo serve de algo, Mexe contigo ou faz-te mexer’ a encadear com cada música entoada até este momento. O ritmo é electrizante, com guitarras, bateria, voz e vozes secundárias de génio, criando um enredo tão fresco como promissor.

Finalizamos com Éter, que podia acompanhar qualquer filme da nossa vida. Um slow-burn inicial, que vai explodindo aos poucos, culminando com um solo de piano onde a vontade é de pedir e chorar por mais.

Se há disco que tem de ser tocado ao vivo, esse disco é A Poda das Nuvens. Acreditamos que cada uma destas histórias, envolvidas por uma sala intimista, tem tudo para funcionar às mil maravilhas.

Quarenta e um minutos depois, as nuvens desaparecem do topo da nossa cabeça, sendo substituído por um sol brilhante, quente e charmoso. Um conforto gritante, espelhado numa história de bem dizer que é o novo disco de Vasco Vilhena.

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Álbum completo: