O Necessário Festival Emergente

A segunda edição em tempos de pandemia, e os braços abertos em torno da esperança. O festival à conversa com Carlos Gomes

Foto por Luís Sousa

“é uma imensa dificuldade e é também uma mensagem cívica e cultural. Se queremos ter futuro, temos que, cada um, fazer a sua parte, na parte que lhe couber”

Carlos Gomes, Emergente

Conheci o Carlos Gomes quando inscrevi um projeto para participação no Festival Emergente. Poucos dias após a candidatura, um email do Carlos em termos invulgarmente amigáveis (mas também necessariamente profissionais) me confirmava a inscrição. A principal cara da organização do Festival Emergente que se prepara para a sua 2ª edição, era, já na altura, o responsável máximo de “pôr as mãos na massa”, e para cada nova candidatura seguia um email personalizado, a agradecer, a saudar, e a confirmar. Achei aquilo altamente invulgar. Quem anda neste meio saberá já, nesta altura, a dificuldade que é (para nós todos) dar conta de todos os contactos, de estarmos disponíveis e prontos para uma troca de emails à falta de possibilidade de uma troca de palavras.

A naturalidade do Carlos notou-se logo aí, e passado uns meses (e embora o projecto que inscrevi não tenha sido escolhido) voltei a reparar num esforço heróico de um homem (e da sua equipa), que contra todos os estados de emergência, e as mais altas e imprevisíveis decisões de Estado, se teve que adaptar e re-adaptar, e com ele um festival inteiro. O Festival Emergente realiza-se na próxima Quinta-Feira dia 3 de Dezembro, e nele tocam 8 novos projetos nacionais, numa manifestação de segurança pela cultura e da necessidade da mesma para a segurança de todos e num espírito que se adivinha milagroso para os tempos actuais de um cultura tão mal-tratada.

No nosso espírito de identificação com este ato de consciência e de amor à música, falámos com o Carlos sobre de onde partiu o Festival Emergente, e como tem sido fazer tudo isto permanecer uma festa da nova música Portuguesa. Do resultado dessa conversa resulta também uma sua escolha natural pela divulgação dos 8 projetos que fazem parte do Emergente e na forma como deixarão claro para todos a forma como as colunas terão som, já nesta próxima semana.

O Festival

O Festival Emergente acontece no dia 3 de Dezembro das 16h às 22h no Capitólio, em Lisboa! Durante as 6 horas do festival, 8 bandas “Super Emergentes” sobem ao palco, “para mostrar o talento e a vitalidade da nova geração da música portuguesa”. Carlos refere a importância do evento e do mesmo ser apoiado e vivido:  “Vivemos um tempo no qual, mais que nunca, precisamos uns dos outros e só todos juntos podemos ultrapassar este momento difícil para o mundo e para a cultura em particular”.

O Festival acontece ao vivo, para 250 pessoas e tem transmissão em Live Streaming através da plataforma Ticketline Live Stage. Os bilhetes para o Capitólio custam 15€ e podem ser adquiridos online (aqui) ou nos locais de venda habituais, enquanto os bilhetes para o para o Live Streaming custam 6€ e só podem ser adquiridos na Internet (aqui).

Ao vivo no dia 3 de Dezembro: os projetos

Pelo palco do Capitólio vão passar oito projetos durante o período de seis horas. Sem estilos predefinidos, sem distinção em tamanho e popularidade, e sem travão na capacidade, esperamos uma tarde de encher a alma e de uma incrível capacidade de redenção para com a cultura. Pelas suas próprias palavras apresentamos agora cada um dos projetos que tocarão na próxima Quinta-Feira.

CÍNTIA

“Banda de música instrumental formada no ano de 2017 por músicos jovens de Lisboa, que mescla características do jazz, música eletrónica experimental, as correntes mais alternativas do rock etc. Cíntia é uma banda em constante mutação, cujas ambições musicais e propostas mudam a cada concerto. Lançaram em Agosto de 2019 quatro videos gravados numa live session e têm percorrido o país, apresentado o seu trabalho em vários locais e salas.”

Dream People

“A banda lisboeta faz uma mistura entre dream pop e post-rock. Na verdade, os Dream People são tudo isto, mas muito mais. As suas referências, sendo a mais importante Radiohead, estão bem presentes, mas a banda não segue uma corrente musical estrita. Nas suas músicas cantam-se as vivências de cinco jovens num mundo em rápida transformação: da alegria de novos amores, à melancolia do passar do tempo. Em Janeiro de 2021 lançarão “Almost Young”, o segundo disco da banda”.

FUGUE

“FUGUE. não é um verbo fugitivo a nada que não seja o trivial. Tão pouco é termo relaxado num espectro, ou não fosse o pós-rock usurpado ao espaço por um power-trio com ancas de samba e bossa-nova. FUGUE. é o bater d’um coração bombeado pela veia instrumental, carregando riffs, samples e batidas ao longo duma viagem interplanetária que vagueia entre o analógico e o digital e que assenta bem a todas as formas de dançar”.

Hause Plants *favorito WtMM

“Sonhar acordado pode impedir-nos de desvanecer. Para Guilherme Correia, esses sonhos chegam na forma de canções. Perdidas entre a vida urbana das saídas à noite, em dúvidas existenciais típicas da pós-adolescência e em temas como a ansiedade social, as canções de Hause Plants são bedroom pop na sua essência, mas existem para serem ouvidas e tocadas ao vivo, juntando a urgência e a vitalidade do post-punk dos anos 80 com as paisagens etéreas do dream pop e do shoegaze”.

Lana Gasparøtti

“Lana Gasparotti é luso-croata, natural de Lagos. No início de 2020, começa a compor as suas primeiras músicas e inicia o seu projeto autoral que mistura jazz, hip-hop, drum and bass, disco e música eletrónica. Ao vivo toca teclados, sintetizadores, canta e vai lançando samples, combinando o mundo acústico e digital em tempo real com dois músicos convidados.”

META

“Meta é Mariana Bragada a explorar a essência e a memória da voz. Viaja pelo mundo recolhendo e costurando sons, palavras e histórias onde vai unindo numa manta de retalhos sonoros cruzando vários caminhos da imaginação e sentimentos com tradições. Unindo a tecnologia e a inspiração natural, o contemporâneo e experimental ao tradicional, recria visões e manifestações ancestrais vistas de agora, partilhando sempre o processo de criação no momento e valorizando a viagem como o destino”.

Rui Rosa

“Há uma viagem que se faz, dia após dia, onde os pequenos pormenores se escapam da vista fácil por à vista não estarem. São esses pormenores – um autocolante a descolar da paragem de autocarro, uma voz que se escapou entre o barulho da máquina de lavar, pedir o prato do dia para levar e esquecer-se de fechar a tampa. Rui Rosa é alimentado assim, levando amor e histórias a ser contadas pelos pequenos detalhes que, de início, pareciam não ter sequer história. Feliz por ver na fraqueza a sua beleza.”

Vila Martel

“O projeto pretende afirmar-me no panorama musical como uma referência do indie rock cantado em português. O seu disco de lançamento “Nunca Mais É Sábado” é composto por oito canções que retratam as vivências de uma faixa etária que quer viver em prol de um sonho, mas à qual não são dadas as condições necessárias. O amor, a emigração e a morte de alguém próximo são alguns dos temas cantados neste trabalho de estreia do quinteto lisboeta”.

A origem, a missão e a pandemia

“A cultura é mais segura que o balcão da caixa registadora e as apalpadelas na fruta!”

Carlos Gomes, Festival Emergente

[WtMM] De onde partiu a ideia do Emergente, houve de alguma forma um momento decisivo para a ideia passar à pratica?
[Carlos Gomes] Houve sim. O momento decisivo foram os Santos Pecadores em 2018, um outro evento organizado pela Transiberia no dia de Santo António, no pátio do Centro de Inovação da Mouraria. O evento consiste em 12 horas de programação musical em ambiente de festa louca, na maior parte dos casos com bandas também elas no início do seu percurso na música e que em 2018 contou com cerca de 4000 pessoas, a entrarem e a saírem do recinto, mas que no final contava com cerca de 800 pessoas que ali permaneceram. Percebi eu e aqueles que nesse ano organizámos o evento, que havia ali um enorme potencial e que fora daquele clima próprio do Santo António seria interessante criar um festival dedicado a uma novíssima geração de músicos, para lhes dar mais oportunidades e para também nós termos um papel mais ativo no desenvolvimento do enorme talento musical que existe em Portugal. Paralelamente a isso, tenho um filho que também é músico e que estava sempre a trazer-me para casa novas sonoridades de malta da sua idade, alguns amigos seus, o que me fez também confirmar o enorme talento deste pessoal. Por “sorte” o nome Festival Emergente estava disponível e nasceu mesmo de parto emergente, em Fevereiro de 2019, no LAV – Lisboa ao Vivo. 

A ideia do emergente é também uma partilha de talento com Espanha?
Não concretamente. A ideia do Emergente inicial era, de facto, na linha daquilo que têm sido o trabalho da Transiberia, estabelecer,  pouco a pouco, pontes não só com Espanha, mas também com a América do Sul. Na primeira edição tivemos uma dupla de Djs Brasileiros, os Venga Venga, dos quais eu agora sou o manager e booker e uma banda espanhola, os Tourjets. Mas foi mais como apontamento dessa vontade do que propriamente algo muito pensado estrategicamente. Na edição deste ano, tivemos que dar um passinho atrás, mas que também nos fez perceber a nossa verdadeira missão que é apoiar antes demais os talentos emergentes portugueses. Mas continua a existir uma intensa partilha de ideias e contatos que poderão ir nesse sentido, a médio prazo, com vários amigos e parceiros, quer portugueses, quer espanhóis, quer sul-americanos. No entanto, o que a nós nos interessa verdadeiramente é fazer algo que nos dê prazer e que sirva os sonhos de quem agora começa um percurso artístico na música, em Portugal. 

No momento actual a realização e organização do festival deverá ser de uma tremenda dificuldade, a decisão de organizar o festival é de alguma forma uma mensagem cívica e cultural?
Sim, é uma imensa dificuldade e é também uma mensagem cívica e cultural. Se queremos ter futuro, temos que, cada um, fazer a sua parte, na parte que lhe couber. A mim e à Transiberia coube-nos, entre outras, esta, de realizar um festival para esta malta nova que precisa de estímulos, que precisa de palco, e que precisa de quem acredite neles e nos seus sonhos. Foi para isso que o Emergente nasceu e é fortalecidos por esse saber – porque é que fazemos aquilo que fazemos – que temos avançado por entre dificuldades de todo o tipo nestes últimos oito meses, superando-as e superando-nos. 

Que dirias a quem neste momento pensa legitamente duas vezes antes de sair de casa para ver um concerto ou festival de música?
Deixe-se de merdas ou então não vá ao hipermercado no fim de semana. A cultura é mais segura que o balcão da caixa registadora e as apalpadelas na fruta, ah,ah! 

Que dirias às bandas que concorreram e não ficaram? 
Já disse. Escrevi um e-mail a todas elas, logo depois de anunciado o line-up dizendo a verdade. Que em muitos casos não foi por falta de talento e qualidade que não ficaram. Temos oito bandas este ano porque é o que podemos ter. Se tivéssemos três dias e mais dinheiro para lhes pagar, podíamos ter tido 24, com uma qualidade muito boa, só em resultado do Open Call Super Emergentes. Aliás, até tivemos mesmo a possibilidade de o confirmar. A banda Cri The Coeur, que venceu a votação do público, infelizmente, para nós e para eles, acabou por não poder estar presente por motivos dos estudos universitários de alguns dos seus elementos e em função da necessidade que tivemos de mudar a data do festival do dia 29 de Novembro para o dia 3 de Dezembro, próxima Quinta-feira, para o poder realizar ao vivo. Foi outra dor de cabeça ter de os substituir, porque na verdade tinhamos, assim de caras, 4 ou 5 bandas que gostaríamos de convidar. Acabaram por ser os Vila Martel. Estamos felizes com a entrada deles, pois são uma banda com uma pop muito fresca, muito carregada do espírito desta juventude, muito mais consciente do mundo em que vivem que muitos dos pais da geração deles, quando tinham a sua idade. A música dos Vila Martel “Não Nos Deixem Ir Embora” é um grande hit e hino aos tempos que vivemos, ao mundo em que vivemos, ao momento absurdo da cidade de Lisboa, meia vazia (pedi-lhes para abrirem o festival com esse tema, mas não sei se vão aceitar, ah,ah, mas que era lindo era), porque muitos já foram deixados à sua sorte e tiveram que ir embora, para outros que afinal não vivem cá e agora nem podem vir cá, as ocuparem, quando não tem mais nada que fazer. É uma coisa sem sentido, injusta e demoníaca mesmo. O direito à habitação, o direito à cidade e a uma vida digna e não condicionada e empurrada por interesses sem rosto e na maior parte das vezes sem qualquer ligação à realidade local, deveria ser Universal, ponto. O resto é especulação desumanizante.

Diz-nos as tuas 3 melhores descobertas recentes no panorama da música Portuguesa?
Isso não posso fazer neste momento, seria incorreto e injusto da minha parte. Incorreto porque sou o responsável máximo do festival. Injusto porque ainda não ouvi nenhuma das bandas que vão estar no Emergente ao vivo. E na verdade gosto realmente de todos. Terei algum fraquinho por algumas mas preciso de o confirmar. Mas se queres uma resposta, diria que são 8 (para mim quase todos descobertas pessoais),fora aqueles que adorei ouvir e que não vou poder ouvir no Emergente porque não pudemos escolher todos os projetos de que gostámos muito, com muita pena minha. Mas ficámos com a sensação de dever cumprido. Procurámos ser justos, imparciais, abertos e transparentes. Acho que passámos essa ideia. 


Nós (Where the Music Meets) estaremos Quinta-Feira no Festival Emergente, e esperamos por todos vocês para uma bonita e tão necessária festa da música Portuguesa!

Para mais informação sobre o Festival Emergente deixamos de seguida todas as páginas do Festival:
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